sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Vai uma voadinha transformadora aí?

Já havia ouvido falar na escolarização doméstica, em famílias que revezam cada período umas com os filhos das outras para ensinar mais que a grade estudantil oferece, mas essa semana conheci o unschooling na reunião da rede livre de aprendizagem Escola com Asas. Mães que pesquisaram sobre as fases de desenvolvimento dos filhos e deixam ambientes propícios com livros, letras e o que mais eles puderem ter curiosidade, para livre e natural exploração. O coletivo Barro Molhado está aproveitando que várias crianças querem entender "como se faz" e levaram até uma fábrica de balas, explorando o processo de ponta a ponta: pegar o ônibus, metrô, ver a linha de produção, falar com os envolvidos... Eles me pareceram preparar mais a molecadinha para a vida que escolas de pedagogia alternativíssima, mas que não sabem a parte menos nobre do dia a dia ou essas turmas de "pobres meninos ricos" que também se não forem levados quase no colo não fazem uma descoberta, uma visita diferente, uma excursão "fora da caixa".
As histórias da fundadora da rede livre de aprendizagem, Sabrina Bittencourt foi compartilhando descobertas mútuas... Uma estudante queria uniforme, então fizeram projetos pesquisando algodão, o plantio orgânico, teve documentário com trabalhador em agricultura reclamando de agrotóxico, pesquisa econômica do impacto de comprar na China, criação de logos, seleção de cores, camisetas com apelidos e cores novas... Um semestre de levantamentos, entrevistas, trabalhos... O aprendizado se torna significativo meessmo! Mas os pais não podem fazer de conta que não é com eles, como os preguicentos que esperam que a escola faça o "milagre de Fátima" que não conseguem em casa. Muito pelo contrário: tive a impressão que estão criando com estas redes de trocas de conhecimento e apoio pedagógico virtual a comunidade indígena ou de algumas regiões mais carentes, que o filho de uma é de todas e que só fazendo escambo inclusive do saber a existência fará sentido.
Veio muito a calhar depois de ouvir e achar uma grande queda de ficha o que me disse uma atriz que dirigi: "quando éramos novos e tínhamos facilidade numa área, nos desencorajaram a continuar empenhados nela e fizeram com que reforçássemos o que era mais difícil, mas perdemos a chance se ser gênios no que mais gostávamos". E dividindo atenção, tentando entender o indecifrável viramos medianos em tudo.
Um dos alunos com asas aos 8 anos resolveu salvar crianças pela alimentação saudável e pesquisou tanto, fez tantas comidas que descobriu inacreditavelmente novo que a combinação dos corantes amarelo e vermelho deixa a criança imediatamente hiperativa: não adianta comer Danoninho, Doritos, voltar à classe subindo pelas cortinas e tomar Ritalina. Visitando hospital pediátrico para checar que melhoras podiam ser propostas, detectou que as máquinas de comida só vendiam trash food, sugeriu resoluções, levantou opções e hoje vendem produtos orgânicos nos corredores de espera desta instituição espanhola. O amiguinho dele pesquisou resistência ao HIV relacionada à peste bubônica e fez uma vacina para uma região africana, com dez anos. Conversei boquiaberta com outra educadora que questionou como eles se colocariam no mercado assim "soltos", já que estamos com dificuldade com inglês, pós e o escambau, Eles estão sendo preparados para empreender. Criar demandas, soluções, salvar pessoas. E como sonhou nossa anfitriã do Instituto Appana: desmontar a Matrix que já não faz quase mais ninguém feliz.
Lógico que fiquei com a impressão de que esses pais vivem para acompanhar esse processo inebriante, não "fazem camping" em firma que cutuca a gastrite. Mas a idealizadora lembrou que não é possível falar em  verdade com o filho à noite passando o dia criando campanha para empresa que polui, tem mão de obra análoga à escravidão ou concorrência desleal. E ela mesma já é para lá de especial: auxilia 37 negócios sociais no mundo, um deles foi plantio de cenourara também na África, em região que a cegueira era ligada à falta de vitamina.
Nessas horas lembro de um colega e ex professora descendo do palco após apresentar A Mais Valia Vai Acabar Seu Edugar, soprando para cima de nós e desafiando: "toma que a vida é tua"!
Quem conversei avalia que são poucos ainda com esta iniciativa, que precisava ser o mundo todo. Bom, quatro mil na Espanha e mil aqui. Lembro do Che ou Fidel, levantando quando estavam em Sierra Maestra pela revolução, pouco mais de uma dúzia, mas a avaliação era "então somos muitos". E eles conseguiram. Muitos pais lá pegaram o limão e fizeram uma limonada: com filhos disléxicos ou super dotados, que não se encaixavam à linhazinha de produção escolar, estão produzindo aprendizagem melhor fora dela. Na antiga divisão série, éramos vistos como linha de produção e cada ano nos acrescentavam mais "peças": se formar era nos meter nos moldes de manter tudo "na mesma várzea de sempre". Grade curriculas, diretoria de ensino, grades: ranço de períodos ditatoriais e semelhanças arquitetônicas com hospícios e prisões não criam ambiente relaxado que a aprendizagem requer,
Essa visão é muito abandonar cabrestos: a vida é escola e todos somos professores. Onde poderíamos ter chegado se não nos dissessem que não era possível desenhar, ir para a lua, ser escritor, salvar animais, virar palhaço ou...? Sabrina, incentivadora inquieta corta "grilhões adultos": "você pode/ consegue tudo".

1 Comentários:

Às 20 de dezembro de 2014 02:35 , Blogger Noram disse...

Caracaaaa Francine...arrasou neste texto, vc é muito boa escritora....lindo, profundo,instigante...adoreiiii!!!!! Bjsss

 

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